Dr. Fernando Giovanella

Especialista em Cirurgia e Traumatologia Buco-maxilo-facial

Mestre em Implantodontia

ATM & BOTOX

A articulação da mandíbula, chamada de articulação têmporo-mandibular (ATM), possui no seu interior um disco que desliza para permitir o movimento normal de abertura e fechamento mandibular, sendo uma articulação de cada lado agindo simultaneamente. Essa articulação faz parte de um sistema complexo formada por músculos, tendões, ligamentos, cartilagens e a oclusão dentária (engrenamento dentário). Vídeo sobre o funcionamento da Articulação têmporo-mandibular Dentre os problemas que podem acometer esta articulação, está os problemas relacionados ao disco articular (problemas no posicionamento ou na sua forma), doenças sistêmicas, problemas no osso que circunda a articulação, infecções bacterianas, tumores, fraturas e anquilose (ossificação da articulação). Porém, a maioria dos problemas é de origem muscular ocasionamos por hiperfunção dos músculos da mastigação. Isso acontece especialmente no paciente que range os dentes (bruxismo) e muitas vezes existe um componente tenso-emocional envolvido. No passado, todos os problemas eram atribuídos a oclusão dentária, porém, não há estudos suficientes que suportam esta afirmação, uma vez que existem pacientes com a mordida correta e mesmo assim possuem problemas na articulação. Porém, algumas condições dentárias como uma restauração muito alta pode desencadear dor na ATM, sendo, neste caso, indicado um ajuste nos contatos dentários (ajuste oclusal). Algumas doenças articulares como a artrite podem ocasionar a má oclusão, nesse caso o problema dentário foi resultado de uma doença articular e ajustes oclusais não trazem benefício algum ao paciente. Os sinais e sintomas mais comuns desta disfunção são dor de cabeça e nos músculos da face, travamento da boca, limitação de abertura de boca, estalido da articulação, dor de ouvido. A avaliação é feita através de questionário, exame clínico, eletromiografia, exames laboratoriais e exames de imagem como radiografia, tomografia e ressonância magnética. O tratamento para essas condições é multidisciplinar, envolvendo muitas vezes o cirurgião buco-maxilo-facial, ortodontista, protesista, fisioterapeuta, psicólogo, especialidades médicas entre outros. Os procedimentos não invasivos são executados inicialmente como o uso de placas oclusais, toxina botulínica, medicamentos, aconselhamento quanto a hábitos, fisioterapia. Algumas condições precisam de procedimentos cirúrgicos minimamente invasivos como artroscopia ou artrocentese, no qual a articulação é lavada com o intuito de remover componentes inflamatórios e adesões do disco articular. Situações mais avançadas podem necessitar de procedimentos cirúrgicos abertos, sob anestesia geral.Muitas pessoas apresentam o hábito de ranger os dentes, e na maioria das vezes fazem isso involuntariamente, principalmente durante o sono. Isto leva a uma série de problemas como dores de cabeça e na face, desgaste dentário acentuado, quebra de dentes e restaurações, aumento do volume do músculo masseter (hipertrofia de masseter) e dor na articulação da mandíbula (articulação têmporo-mandibular).

O paciente que não apresenta controle dessa condição não está apto a receber tratamento odontológico reabilitador (próteses, restaurações, implantes) uma vez que ação muscular acentuada e contínua contribuirá negativamente na longevidade dos procedimentos executados. Tradicionalmente, terapias com placas oclusais de resina acrílica eram instituídas como forma de amenizar o problema, protegendo os dentes dos efeitos deletérios do bruxismo, associando a medicamentos relaxantes musculares. Porém os relaxantes musculares possuem ação em todos os músculos do corpo e deixam, na maioria das vezes, as pessoas sonolentas prejudicando seu rendimento durante o dia. Além disso o uso de placas oclusais muitas vezes não é bem aceito pelos pacientes, pela impossibilidade de uso contínuo durante o dia, e incômodo durante a noite.

O tratamento de bruxismo com uso de toxina botulínica tipo A (Botox®) possui amparo na literatura científica. Ao administrar essa toxina em alguns músculos da mastigação (músculo temporal e/ou masseter), ela irá diminuir a força de contração muscular, fazendo com que o paciente pare de ranger os dentes. A principal vantagem é a que o paciente não necessita mais usar placas oclusais e nem medicamentos relaxantes musculares. O efeito inicia após 2 a 3 dias e apresenta ação total por volta dos 12 dias. O tempo de ação do Botox® é em torno de 6 meses a 1 ano, variando de cada paciente. Neste tempo no qual a toxina esta fazendo efeito, o paciente é instituído a realizar terapias auxiliares (fisioterapia, técnicas de relaxamento, psicoterapia) para que minimizem a possibilidade de recidiva.

REFERÊNCIAS

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2. Chang H. Botulism toxin: use in disorders of the temporomandibular joint. Dent Today. 2005 Dec;24(12):48, 50-1; quiz 1.

3. Chikhani L, Dichamp J. [Bruxism, temporo-mandibular dysfunction and botulinum toxin]. Ann Readapt Med Phys. 2003 Jul;46(6):333-7.

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